O dia não tem as mesmas 24 horas para todo mundo
- 24 de fev.
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Dizem que o dia tem 24 horas para todo mundo. No relógio, sim. Na vida real, não. As horas não rendem do mesmo jeito porque são atravessadas por desigualdades sociais que determinam como e que tempo e liberdade temos.
Há quem acorde e encontre o café pronto; há quem acorde antes do sol para preparar o café de todos. As horas dedicadas às tarefas domésticas (historicamente invisibilizadas e desigualmente distribuídas, sobretudo entre mulheres e pessoas pobres) consomem tempo que poderia ser descanso, estudo ou lazer. Limpar, cozinhar, cuidar de crianças e idosos não aparecem no currículo, mas ocupam largas fatias do dia.
Há também as horas gastas em deslocamentos longos e exaustivos. Duas, três, quatro horas no transporte público lotado não são apenas tempo de trajeto: são energia drenada, corpo comprimido, mente saturada. Enquanto alguns transformam o tempo em academia, cursos ou networking, outros lutam para chegar em casa com o mínimo de disposição.
A falta de lazer não é luxo ausente, é saúde negada. Sem pausas, sem espaços de fruição e criação, o cotidiano vira uma sequência de obrigações. A sobrecarga constante reduz o dinamismo, enfraquece a criatividade e esgota a energia. Tarefas simples tornam-se pesadas. O tempo não flui.
Quando o cansaço é permanente, a produtividade cai, a concentração falha e o corpo cobra. Não se trata de “má gestão do tempo”, mas de condições materiais desiguais.
Por isso, dizer que todos temos as mesmas 24 horas ignora que alguns têm tempo protegido, enquanto outros têm tempo tomado. A justiça social também passa por redistribuir o tempo, garantindo mobilidade digna, divisão justa do trabalho doméstico, acesso ao lazer e condições que permitam que as horas não sejam apenas sobrevividas, mas verdadeiramente vividas.


















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