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Pequenas futilidades

  • 16 de mar.
  • 2 min de leitura

Permitir-se pequenas futilidades pode ser um gesto importante de preservação da saúde mental e da própria dignidade. Em um mundo que exige produtividade constante, abrir espaço para algo aparentemente inútil (ver uma série sem culpa, comprar algo apenas porque achou bonito, passar tempo conversando sem objetivo, caminhar sem pressa) pode funcionar como um respiro necessário. Esses momentos não são desperdício: são pausas que nos devolvem a sensação de humanidade em meio às exigências da vida cotidiana.

Ainda assim, muitas pessoas sentem culpa ao se permitir esse tipo de prazer simples. Isso acontece porque vivemos em uma cultura que enaltece o sacrifício. O esforço extremo, o cansaço constante e a ideia de que “quanto mais você sofre, mais valor tem” foram transformados em sinais de mérito e prestígio. Nesse cenário, descansar ou fazer algo apenas por prazer pode parecer irresponsável ou improdutivo.

Essa lógica tem raízes históricas profundas. Em sociedades marcadas por desigualdade e instabilidade, grande parte das pessoas foi educada para sobreviver antes de tudo. Sobreviver exige energia, disciplina e, muitas vezes, renúncia. O problema é que, no capitalismo contemporâneo, essa mentalidade de sobrevivência foi incorporada a um modelo de performance permanente. Não basta trabalhar: é preciso render mais, produzir mais, otimizar cada minuto e transformar tudo em resultado.

Nesse contexto, a vida vai sendo comprimida entre obrigações e metas, e aquilo que não gera lucro ou produtividade passa a ser visto como fútil. Mas talvez seja justamente nessas pequenas futilidades que a vida se torna habitável. Elas lembram que não somos apenas máquinas de desempenho, mas pessoas que precisam de leveza, descanso e prazer.

Permitir-se esses momentos não é sinal de fraqueza ou falta de ambição. É uma forma de resistência silenciosa a uma cultura que tenta transformar cada instante da vida em desempenho. Cuidar da saúde mental também passa por isso: reconhecer que viver não pode ser apenas sobreviver ou produzir. Às vezes, preservar a própria dignidade começa quando aceitamos que nem tudo precisa ter utilidade. Algumas coisas só precisam nos fazer bem.


 
 
 

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Walter Miez

PSICÓLOGO CLÍNICO,
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