A miragem do desejo
- 8 de jun.
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Vivemos atravessados pela sensação de que falta sempre alguma coisa. O próximo objetivo, a próxima compra, a próxima conquista, o próximo reconhecimento. Quando finalmente alcançamos aquilo que tanto desejávamos, sentimos a alegria. Isso acontece porque a dopamina, neurotransmissor ligado à motivação, ao sistema de recompensa e à sensação de prazer, é ativada não apenas pela conquista, mas principalmente pela expectativa dela.
O problema é que essa descarga logo passa. E então surge outro desejo, outra meta, outra promessa de felicidade futura. Como se estivéssemos eternamente correndo atrás de um horizonte que se afasta à medida que nos aproximamos.
O capitalismo compreendeu muito bem esse funcionamento do cérebro e transformou a dopamina em ferramenta de consumo. Somos constantemente convocados a comprar, vender, acumular, performar, produzir e alcançar. O tédio virou inimigo. Criaram em nós a ideia de que precisamos estar permanentemente estimulados para sentir que a vida vale a pena, mas talvez essa lógica seja apenas uma grande miragem.
Enquanto o mundo exige pressa, povos originários há muito nos ensinam outra relação com o tempo. Um ritmo menos ansioso e mais atento aos ciclos da vida. A semente não apressa o fruto. As folhas caem quando chega o tempo de cair. A cheia do rio vem e depois dá lugar à seca. A lua muda sua forma no céu. O sol altera o lugar onde nasce e se põe ao longo do ano.
Existe sabedoria em perceber que a vida não é feita apenas de picos de prazer, mas também de intervalos, maturações e esperas. Nem todo instante precisa ser extraordinário para ser vivo.
Talvez aproveitar a existência seja menos sobre perseguir estímulos incessantes e mais sobre aprender a acompanhar os movimentos sutis do tempo.




















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