Sorte ou mérito
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Existe um hábito curioso em muitas pessoas: trabalhar, estudar, insistir, aprender com os erros, desenvolver habilidades e, quando finalmente alcançam um resultado positivo, resumem tudo a uma única palavra: sorte.
É claro que a sorte existe. Circunstâncias favoráveis, oportunidades inesperadas e encontros fortuitos fazem parte da vida. O problema surge quando ela passa a receber todo o crédito por conquistas que exigiram esforço, dedicação e crescimento pessoal.
Muitas vezes, essa dificuldade de reconhecer o próprio mérito não é simples humildade. Existe um mecanismo psicológico por trás disso. Em um ambiente percebido como competitivo, hostil ou imprevisível, pode parecer mais seguro acreditar que somos menos capazes do que realmente somos. Dessa forma, continuamos vigilantes, esforçados e atentos aos riscos. Reconhecer nossas competências pode ser confundido, equivocadamente, com acomodação.
Algumas pessoas vivem como se elogiar a própria trajetória fosse um perigo. Temem que reconhecer suas habilidades as torne arrogantes, vaidosas ou descuidadas. Assim, transformam anos de aprendizado em acaso, disciplina em coincidência e competência em mera sorte.
Mas negar o próprio mérito não nos torna mais preparados, pelo contrário. Quando não reconhecemos aquilo que construímos, perdemos a oportunidade de compreender quais recursos internos nos permitiram chegar até ali. Ficamos sem perceber nossa capacidade de aprender, persistir, adaptar estratégias e superar desafios.
Reconhecer uma conquista não significa acreditar que sabemos tudo. Não significa baixar a guarda nem deixar de evoluir. Significa apenas olhar para a própria caminhada com honestidade. Se houve esforço, que ele seja reconhecido. Se houve crescimento, que ele seja nomeado. Se houve competência, que ela tenha seu lugar.
A verdadeira humildade não está em negar as próprias qualidades, mas em enxergá-las com clareza. Afinal, quando chamamos de sorte tudo aquilo que construímos, acabamos vivendo como visitantes de uma história da qual fomos protagonistas. Reconhecer nossas vitórias não é um ato de vaidade; é um ato de justiça com a pessoa que nos tornamos ao longo do caminho.




















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