Fuga e prisão
- 27 de ago.
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Existe uma armadilha silenciosa em tentar fugir daquilo que nos incomoda: quanto mais evitamos algo, mais espaço isso ocupa dentro de nós. Fugir de uma experiência, de uma lembrança, de uma emoção ou de uma pessoa pode dar uma sensação momentânea de alívio, mas raramente nos liberta.
O que não se resolve, não se dissolve.
É curioso perceber que até para ignorar alguma coisa é preciso lembrá-la. Quem diz "não quero pensar nisso" precisa primeiro pensar naquilo que deseja evitar. A tentativa de expulsar um pensamento, muitas vezes, acaba mantendo-o vivo.
Isso aparece de muitas formas no cotidiano. Alguém evita passar por uma rua porque viveu um relacionamento ali. A rua deixa de ser apenas uma rua e passa a comandar o trajeto da pessoa. Outro evita falar em público por medo de errar. Quanto mais evita, mais o medo cresce, porque nunca encontra uma oportunidade de descobrir que pode lidar com o desconforto.
Também acontece nas relações. Há quem fuja de conflitos para manter a paz. Concorda com tudo, silencia, muda de assunto. Mas o conflito não desaparece: ele apenas muda de lugar e costuma reaparecer como ressentimento, distância ou explosões inesperadas.
Na ansiedade, isso é ainda mais evidente. Quem tenta controlar qualquer possibilidade de sentir ansiedade passa a organizar toda a vida para não encontrar situações desconfortáveis. Aos poucos, a rotina fica menor, enquanto o medo fica maior.
Enfrentar não significa gostar, nem se jogar de qualquer maneira sobre o sofrimento. Significa permitir que algo exista o suficiente para ser elaborado. Algumas dores precisam ser olhadas, nomeadas e atravessadas para perderem a força que têm sobre nós.
Liberdade não é viver sem medo, sem tristeza ou sem lembranças difíceis. É não precisar organizar a própria vida em função delas.
Às vezes, o caminho para deixar algo para trás não é correr mais rápido. É parar de correr e descobrir que aquilo que nos perseguia também esperava ser encontrado.




















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