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Indignação e ambição

  • 29 de ago.
  • 1 min de leitura

Nem todas as pessoas vivem uma condição de vida em que existe espaço para a indignação. Algumas simplesmente precisam se contentar com a organização possível da própria existência: cumprir tarefas, trabalhar, deslocar-se até o trabalho, pagar as contas e repetir o ciclo. Não porque estejam satisfeitas, mas porque a vida foi se tornando tão restrita que imaginar outra possibilidade parece distante demais.

A indignação, por outro lado, nasce justamente quando há expectativa de outros modos de vida. Há pessoas frustradas porque gostariam de viver mais, experimentar outras coisas, desenvolver novos interesses, fazer escolhas que não estejam reduzidas à obrigação e à sobrevivência. Existe incômodo porque existe comparação entre aquilo que se vive e aquilo que se acredita ser possível viver.

Por isso, nem toda indignação deve ser compreendida como ingratidão ou insatisfação excessiva. Às vezes, ela revela confiança. É preciso acreditar que a vida pode ser diferente para se incomodar com aquilo que ela é hoje. É preciso alguma esperança de futuro para desejar mudanças no presente.

A indignação pode ser cansativa, mas também carrega força. Ela anuncia que existe desejo, expectativa, curiosidade e disposição para construir outra trajetória.

A pessoa que se revolta com a própria existência ainda está, de algum modo, dizendo: “eu acredito que posso viver mais do que isso.”

Talvez seja melhor essa inquietação do que a secura de quem já não espera nada. O futuro deve sempre parecer um lugar de possibilidades.

 
 
 

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Walter Miez

PSICÓLOGO CLÍNICO,
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