O desencontro com o outro

Nem todas as relações da nossa vida vão se alinhar plenamente a todos os nossos valores. Isso, muitas vezes, gera frustração e até a sensação de incoerência. Ainda assim, é inevitável nos relacionarmos com pessoas importantes, mas que, em algum ponto, friccionam princípios, crenças ou modos de viver que nos são estruturantes.
Diante disso, costuma-se pensar apenas em dois caminhos: romper ou suportar. No entanto, existe uma terceira via possível e, muitas vezes, mais saudável: reorganizar o laço. Para isso, o primeiro passo é reconhecer que há diferenças sutis e diferenças estruturais. As primeiras, em geral, permitem negociação, por exemplo: diferenças de times de futebol ou de quando lavar a louça da pia. As diferenças estruturais são mais difíceis de neutralizar e exigem maior cuidado, pois atravessam diretamente aquilo que sustenta quem somos.
Reorganizar a relação pode significar criar distâncias estratégicas, de modo que os encontros sejam mais amistosos do que conflituosos. Pode envolver a definição clara de limites, estabelecendo temas sensíveis que não precisam ser debatidos. Pode, ainda, passar pela construção de uma compreensão mútua em que aquilo que é importante para um não seja vivido como ameaça ao outro.
Sobretudo, trata-se de aprender a construir vínculos em que a diferença não produza ônus sobre si. O outro pode ser como é, desde que isso não gere consequências negativas para nós. Se tenho um hábito alimentar diferente, isso não precisa desorganizar minha rotina. Se o outro pratica uma religião, o respeito não exige participação nos ritos. Se há desorganização financeira, é legítimo proteger-se para que esse prejuízo não recaia sobre si.
Cuidar das relações, portanto, não é eliminar diferenças, mas impedir que elas nos adoeçam. É escolher, com responsabilidade afetiva, onde ceder, onde negociar e onde preservar a si mesmo.




















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