Outros apaixonamentos
- Walter Miez

- há 2 horas
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Há outros modos de apaixonar que não exigem o incêndio imediato, o frenesi das arpas tocando ao fundo ou o enredo parnasiano dos folhetins que moldaram os folhetins românticos. Num contexto de relações se tornando mais líquidas e atravessadas por aplicativos que prometem acesso ilimitado a encontros, somos levados a acreditar que estamos sempre fazendo algo, deslizando, curtindo, respondendo, para alcançar uma conexão afetiva. Mas esse movimento nem sempre é consistente; às vezes, apenas reforça a sensação de que tudo é substituível, rápido e descartável.
Por isso, emergem hoje formas mais brandas e despretensiosas de se vincular. Modos de se aproximar que não dependem do choque elétrico à primeira vista, mas do cultivo, de pequenas trocas, de afinidades que aparecem sem espetáculo. Um apaixonamento que nasce menos do fogo e mais da brasa contínua: conversas que acontecem sem urgência, encontros que não precisam provar nada, presenças que se tornam significativas porque são leves, não porque são intensas demais.
Esses outros estilos de apaixonamento reconhecem que nem sempre o amor se anuncia com sinos ou borboletas no estômago. Às vezes, ele chega como um gesto cotidiano, uma curiosidade que insiste, uma presença confortável. Reconhecer isso nos permite escapar da fantasia de que amar é sempre uma explosão. Pode ser também um processo que se constrói devagar, fora das narrativas grandiosas, mas do aprofundamento.













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