Palavrear
- Walter Miez

- 6 de out. de 2025
- 1 min de leitura

Palavrear sentimentos ou experiências é um ato de tradução: transforma o que é disforme, aquoso e sensorial em algo palpável, com contornos definidos. Quando colocamos em palavras o que sentimos ou vivemos, atribuímos significados que organizam a nossa percepção, permitindo compreender com mais clareza o fluxo das emoções e os acontecimentos que nos atravessam. Essa prática nos oferece consistência para interpretar a vida, criando um mapa mais fiel de nossas experiências.
A escolha das palavras não é estática; os significados podem mudar conforme crescemos ou mudamos de perspectiva. Ainda assim, o ato de nomear estrutura o que parece caótico, estabelecendo uma continuidade narrativa que sustenta a forma como lemos nossa história. Essa consistência é fundamental, pois as emoções influenciam diretamente a maneira como encaramos os desafios: em momentos de felicidade e autoestima elevada, enfrentamos obstáculos com confiança e firmeza. Por outro lado, quando nos sentimos frágeis ou tristes, a tendência é projetar sobre as dificuldades um peso catastrófico e angustiante.
Palavrear não é apenas um exercício de autocompreensão, mas também um recurso de apropriação do sentir. Ele nos ajuda a criar distâncias saudáveis de nossos estados afetivos mais intensos, oferecendo a possibilidade de reposicionar nossa narrativa em relação ao mundo. Esse movimento de dar forma ao informe é um gesto de cuidado consigo mesmo, uma maneira de ressignificar e, ao mesmo tempo, ancorar o que vivemos em um horizonte de sentido mais estável. Assim, a linguagem se torna um instrumento de continuidade e transformação, ajudando-nos a habitar o mundo com mais presença e consciência.















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